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Jul 07
Não sei se já repararam, mas as marmitas e os tupperwares voltaram às empresas.

Sem que alguma vez tenham saído das fábricas.

Não se almoça, come-se qualquer coisa.

Nos supermercados dos grandes centros urbanos, há gente a pedir aparas de frango e de fiambre.

No interior do País, famílias insuspeitas recorrem aos cabazes alimentares distribuídos pelas câmaras.

Onde antes se tirava ao supérfluo hoje tira-se à comida.

Os filhos, a creche, as distâncias casa-trabalho, o empréstimo, os ordenados baixos, os aumentos inexistentes, as miragens do amanhã que tarda, não garantem a dignidade nem dão asas aos desejos.

Mas os salários de miséria convivem amiúde com expectativas de grandeza. Marcas, empresas, estrategas de marketing, bancos, governantes, artistas, modelos, futebolistas, convencem-nos de que podemos ter a vida que não conseguimos pagar.

Dizem-nos, insinuam, que podemos ter as férias do patrão. O gabinete e o bem bom.

A casa, o carro e o relógio do chefe.

Ir onde ele vai, frequentar o mesmo restaurante, o ginásio, o spa, o que tiver de ser. Ler o que ele lê para assim estarmos mais próximos da cadeira do poder.

«Se ele pode porque é que eu não posso?!», perguntamos, indignados.

Grande civilização esta que democratiza a ilusão, mas esconde o preço para sustentar a miragem.

No fundo, governos, empresas, bancos, dão-nos crédito ao sonho, mas dizem-se indisponíveis para ajudar-nos a pagar a realidade de todos os dias.

E nós vamos na conversa.

Queremos ser cada vez maiores e melhores.

Belos, giros, modernaços, actualizados, ambiciosos. Dantes, no tempo dos nossos avós, até a ambição era uma coisa feia, mal vista e frequentada. Tresandava a falta de escrúpulos. Hoje é condição obrigatória em anúncio de emprego no jornal.

Buscamos o amor e a paixão em livros de ocasião, as competências em manuais, as curas em técnicas orientais. Por vezes, no local de trabalho, dizem que somos indispensáveis. Falam de motivar equipas, libertar o génio que há em nós. Dão-nos cursos para nos tornarmos trabalhadores multi-qualquer-coisa, flexibilizar ritmos, encarar a insegurança na profissão como um desafio às nossas capacidades. Mas na mercearia, ao final do dia, ainda não aceitam elogios como pagamento.

Um dia, dizem-me alguns, ainda crédulos, isto vai estourar como uma panela de pressão.

Lamento desiludir: não vai.

Ficcionamos a vida como uma série de televisão. E gostamos de nos ver assim. Sempre à espera do próximo episódio. Do final feliz que não vem com a realidade.
A Devida Comédia
Miguel Carvalho - VISÃO
publicado por SoniaGuerreiro às 14:42

comentários:
Parabéns...mais uma vez nos destaques dos blogs do sapo...beijos
Isa a 9 de Julho de 2007 às 15:22

Belo texto, merecedor de transcrição.
Concordo, os portugueses endividam-se cada vez mais para fazer uma vida a que não têm "direito".
Se, por um lado, crescemos em termos culturais; por outro, mirrámos em poder económico. Tudo não passa de ilusão, até mesmo a democracia em que julgamos viver. E a panela não rebenta, só apita, senão já teria rebentado. Parabéns pelo destaque, aqui está um blog que merece...
Lua de Sol a 9 de Julho de 2007 às 18:08

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