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Jul 07

Infância

No meu tempo de criança, a televisão passava filmes repetidos de cowboys, Tarzan, Heidi, Marco e... Gabriela, a mulata de Jorge Amado. Bonecada e aventura à parte, foi a primeira vez que um peito inacessível de mulher me alimentou o imaginário. A horas decentes e indecentes.

Comia de tudo, a más horas e de forma industrial.

Na rua, esmurrava-me com frequência.

Subia a árvores e estatelava-me.

Usava fisgas, apanhava «cabeçudos» e «sardoniscas», como então dizíamos.

Rasguei calças e calções.

Rompi botas e sapatilhas.

Os meus pais, que contavam cada tostão para me pôr a estudar, tremiam de cada vez que me viam chegar. Da escola, ao longo do ano, trazia normalmente três coisas: cara farrusca, uma história mal contada sobre uma camisa rasgada e umas quantas notas tremidas.

Engalfinhava-me com frequência.

Dava e levava. Levava mais do dava.

Comia pó, mas mordia um braço, pelo menos.

A minha avó materna sempre disse que o rapaz não daria em nada. Melhor era pô-lo nos eixos antes que se perdesse de vez. Era rebelde, o ganapo! Não se lhe tinha mão nem freio. Pusesse ele os olhinhos nos primos, quase sempre bem comportados, e talvez ainda se fosse a tempo de fazer dele alguém. Médico, quem sabe?

Em casa dos meus pais e familiares, devorava tudo o que era para ler. As estantes estavam sempre recheadas, havia jornais às catadupas, revistas, banda-desenhada de todo o tipo, com erotismo à mistura (Barbarella, conhecem?) Li Lenine e a Penthouse (não era bem ler...), Tom Sawyer e a Gaiola Aberta.

Havia discussões acaloradas.

Quando penso nesses dias lembro-me sempre da família italiana de Fellini, representada em Amarcord. Nos grandes almoços e jantares com tios, tias, pais e avós, as palavras nunca foram insossas. E os comportamentos eram sempre desviantes, sem a graça de Deus.

Havia cuidados com a criançada, claro, mas o sal e a pimenta da vida nunca faltavam à mesa. Das conversas às anedotas.

Vi entrar e sair pela porta namorados e namoradas dos tios, casamentos, separações e divórcios. Enamoramentos, encantamentos e desilusões.

Quando aos 12, 13 anos, li às escondidas o relatório Shere Hite sobre a sexualidade feminina, um calhamaço de meter respeito, percebi que os homens só podiam ser uns idiotas e as mulheres andavam muito mal frequentadas. Percebi também, finalmente, que «Os Cinco» estavam datados e que o doutor Benjamin Spock teria de esperar.

A minha infância teve ranho, as doenças todas, asneira da grossa e ganga coçada. E, no rabo, uma boa sapatada sempre que a traquinice me punha em perigos e desesperava a família.

Cresci. Simplesmente.

Hoje, quando vejo crianças mantidas em redomas, entregues a falsas palavras mansas, cenários virtuais, prendas de «não me chateies» e paciência de pacotilha, lembro-me da minha infância. Vadia. Perigosíssima, exposta. Capaz de me fazer feliz, até.
In Devida Comédia - Miguel Carvalho - VISÃO
publicado por SoniaGuerreiro às 12:05

comentário:
Este texto é fantástico, faz-me mesmo lembrar os meninos da minha geração. Sim, porque as meninas não eram assim tão dadas a comer pó, morder braços e chegar a casa de camisa rasgada! A mulata do Jorge Amado deu antes de ter idade para saber ler e escrever mas lá em casa contam-me sempre que foi a primeira novela que fui vendo de vez em quando. Julgo que tinha 3 anos. Mas lembro-me da Heidi , da Abelha Maia, dos Estrunfes ... De saltar ao elástico... Acho que hoje já ninguém salta... De andar de bicicleta tardes inteiras...Mas, hoje, as crianças passam o tempo entre quatro paredes. A infância mudou muito...
Lua de Sol a 25 de Julho de 2007 às 04:13

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